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“Eu sei que você não acredita, mas...” Por duas vezes, em tempos recentes, ouvi essa frase dentro de minha própria casa. A primeira vez foi há dois meses, dita por um conhecido de longa data: “Eu sei que você não acredita, mas a fé tem sido muito importante para eu vencer o câncer de próstata.”. A outra saiu da boca de um parente, há duas semanas: “Eu sei que você não acredita, mas gosto de ir à Missa da Vitória, as palavras do padre me fazem muito bem.” Nos dois momentos, certo constrangimento de quem falou, desconcerto de quem ouviu, no caso, eu.
Duas vezes, dois homens, dois meses, duas semanas. Dá até vontade de pesquisar o significado do “dois” na Numerologia. Frases semelhantes foram ouvidas muito mais vezes ao longo dos últimos anos, a ponto de eu chegar à conclusão de que o problema não está no meu ceticismo, mas da dificuldade cultural em se lidar com ele, em um país esmagadoramente religioso. Ou seja, o problema não é meu. O problema sou eu, por fazer parte de um agrupamento estranho à imensa maioria dos brasileiros.
Antes de continuar, quem disse que não acredito? Acredito na busca por uma vida interessante, no potencial libertador do conhecimento, no princípio da igualdade entre todos os seres humanos, na necessidade da luta para vencer permanências detestáveis oriundas do passado, como o racismo e o machismo. Acredito que a fé tem, sim, potencial para ajudar no tratamento de doenças do corpo e da alma, desde que não se dispense os procedimentos médicos.
Também não associo a crença ao atraso. Mais do que isso, sem algum tipo de crença, religiosa, cívica ou revolucionária, é difícil convencer pessoas e gerar movimentos de forte impacto social. Alguém consegue imaginar Lênin, Mao Tsé-Tung e Fidel Castro falando às massas coisas do tipo “olha, enfrentamos nossos inimigos, corremos risco de morrer, mas temos dúvidas no que acreditamos”. Impossível. Eles discursariam para o vazio. Ou, exemplo mais próximo, Ulysses Guimarães, ao proclamar a Constituição de 1988, declarar seu ódio à ditadura, mas admitir sua dúvida na democracia? Seria o anticlímax. A virtude da fé é sua capacidade de despertar e canalizar as energias em direção a um mundo considerado melhor, quiçá perfeito, seja aqui, seja no além, ou em ambos. O seu dilema – sobretudo da fé religiosa – está na lida com aqueles que praticam outras fés, que duvidam, que não possuem fé. Como alguém disse no passado, o problema das revoluções é que sem os revolucionários é impossível fazê-las, e com eles não é possível governar. É discutível se isso é verdade no campo tipicamente humano da política, mas quando se trata de práticas sociais fundadas em inspiração supostamente divina, a coisa fica ainda mais complicada, pois a utopia exige fidelidade a verdades de natureza excludente.
Segundo reportagem da BBC Brasil, de julho de 2023, baseada em pesquisa do Instituto Ipsos, 89% dos brasileiros acreditam em Deus, sendo que 70% alicerçam essa crença nas escrituras religiosas, ou seja, conforme descrito na Bíblia, visto que população é basicamente cristã. 5% dos entrevistados disseram não acreditar em Deus ou em um poder maior, 4% afirmaram que não sabem e 2% não responderam. Embora apenas 8% afirmem não ter religião, esse número indica um crescimento em relação a períodos históricos anteriores, um crescimento sem dúvida tímido, mas, ao que parece, consistente.
O catolicismo, enquanto lhe foi possível, sufocou as outras crenças, contando inclusive com o apoio do Estado. O protestantismo pentecostal hoje desafia o catolicismo. Ambos menosprezam e perseguem os cultos afrobrasileiros. Os kardecistas mantêm seus núcleos de seguidores, convencidos de que seguem uma ciência, e não religião. Cultos esotéricos possuem seu nicho. Todos se criticam. Todos nos estranham, pois é difícil de aceitar que exista gente que não acredita, ou pelo menos, tenha dúvidas. Não faz parte da nossa formação cultural e histórica a atuação de movimentos enraizados de anticlericalismo e de questionamento à fé. Somos um país de religiosos, quem sabe o mais religioso dos países do Ocidente. Até o presente, aqueles que estão fora das estatísticas religiosas – ateus, agnósticos, indiferentes – não chegam a 10%, uma população residual. Isso é menos que os aproximadamente 11% de ateus declarados nos Estados Unidos, um país de formação historicamente religiosa, ou dos 17% de ateus e agnósticos no pequeno Uruguai.
“Eu sei que você não acredita, mas...” Fico chocado de ouvir isso em meu território particular, que considerei durante muito tempo blindado por uma barreira de privacidade, livros e silêncio. Tolo engano. Não é possível viver isolado de uma sociedade profundamente crédula. Em lugares públicos, testemunhei cenas parecidas por inúmeras vezes. Professor, vi colegas orando em conselhos de classe. No início fiquei chocado, depois em silêncio. Poderia ter perguntado aos colegas: “Eu sei que vocês acreditam, mas a escola pública é laica.”. Seria olhado com estranheza, quem sabe agressividade. Nos ônibus, então, perdi a conta de aturar pessoas orando em voz alta, sob silêncio cúmplice dos demais passageiros. “Eu sei que vocês estão rezando, mas trabalhei o dia inteiro, estou cansado e não sou obrigado a escutá-los.” Um amigo que reagiu desta forma me disse que o restante do ônibus lhe mirou com hostilidade, pois não se silencia diante da palavra de Deus. Em 1998, na campanha eleitoral do Rio de Janeiro, assisti oradores rezando no palanque de Anthony Garotinho e Benedita da Silva, candidatos a governador e vice pela coalizão de esquerda vencedora no estado. Algo estava ocorrendo, um movimento crescente, não mais imperceptível, a explodir em todo o país nos anos seguintes: a religião se apossava dos espaços públicos. Não a religião, pois o catolicismo dominara a política brasileira desde os tempos coloniais, somente cedendo um pouco no início do período republicano, mas os evangélicos, cuja presença atingia até os grupos políticos vinculados por tradição e programa à defesa do Estado republicano laico. A religião como força política se reavivou, sobrepondo ao catolicismo envelhecido e acomodado o vigor de um segmento militante, vigoroso, entusiasmado.
Aos poucos, fui me habituando, tomando cuidado com o que falo nas aulas, com pessoas desconhecidas, com vizinhos, procurando me preservar. Tomei a consciência de ser um estranho. Mas, ser estranho em meu espaço privado não deixa de ser chocante. É preciso reagir. Talvez nos reste, aos descrentes, a organização para defender publicamente nossas, oops, crenças.


Acredito que quando a pessoa te diz “eu sei que você não acredita, mas…” ela de forma inconsciente está pedindo desculpa por sua própria fé, por acreditar. Confesso que acho engraçado, pois eu não peço desculpas pela minha fé, nem pra você que não acredita em nada e nem para as pessoas que acreditam em algo diferente de mim.
E não é maravilhoso ter um mundo diverso onde cada um pensa e acredita no que quer?!
Como diz aquela famosa frase popular, nunca saberemos quem está certo ou se há alguém certo, afinal ninguém voltou do outro lado para contar. Se é que existe um outro lado. Pra mim, a dúvida é justamente o motivo da fé existir. Minha fé existe, apesar de.
Gostei muito das três últimas linhas. Não há vida sem alguma crença!