Maconheiros!
Ao longo da adolescência fui tomando consciência de viver numa sociedade ordenada e baseada no trabalho, a tal ponto que boa parte das pessoas tinha acrescida ao nome original a profissão exercida: Dona Ana parteira, Seu Gercino protético, Dona Yolanda enfermeira, Valmir pintor, Seu Hernani pedreiro, Seu Homero polícia, Vadoca marceneiro, Willy barbeiro. Essa lista, resultado de um exercício simples de memória, poderia ser estendida a muitos de nossos amigos, vizinhos e conhecidos, sendo reveladora de uma divisão muito tradicional entre profissões consideradas masculinas e femininas. Aliás, a ausência de maior número de mulheres exemplifica um mundo do trabalho predominantemente masculino, com as mulheres adultas, em sua maioria, confinadas às obrigações domésticas.
Alguns adultos mantiveram os apelidos baseados em características físicas – entraram no meu radar indivíduos como Tiziu, retinto, e Papel, de demasiada alvura, Paulinho Vareta e Jarrão, o primeiro por exiguidade e o segundo por excesso de carnes, Nariz, por razões óbvias, mas esses epítetos, com as ressaltadas exceções, só prevaleciam até o ingresso na sociedade séria dos adultos, o que se dava após o serviço militar, a respeitabilidade trazida pela carteira de trabalho regular e o compromisso trazido pelo noivado e posterior casamento.
Esse mundo regrado tinha, em suas brechas, espaço para pequenas infrações, geralmente de conduta sexual ou de hábitos tidos com excêntricos. De forma geral acreditava-se que o passar dos anos, o trabalho e a formação de famílias levariam à sua superação. Certa vez escutei de minha avó uma sentença muito significativa, “o casamento tudo cura”, sem dúvida em referência às pessoas, sobretudo moças, que não se enquadravam em normas de comportamento sexual mais conservadoras. Da mesma forma, às opções sexuais à margem da normatização, porém exercidas com discrição, poderia ser oferecido o instrumento da vista grossa: era o caso de homens e mulheres adultos que dividiam a casa com “sobrinhos” e “amigas”.
Os maconheiros se constituíam em uma categoria bem delimitada em meio ao mundo de minha adolescência. Eram diferentes dos alcóolatras, presentes em inúmeros poros da sociedade, sem distinguir famílias, trazendo consigo hábitos de gerações, vício que me parecia limitado aos homens adultos, convicção só desfeita muito tardiamente. É possível afirmar que cada birosca tinha seus cachaceiros. Os maconheiros, não: no entorno da vizinhança eles formavam um reduzido grupo de amigos, todos rapazes, rotulados por seus hábitos visíveis. Eram rapazes jovens – desconheci moças maconheiras e demorei um pouco a perceber que havia adultos fumantes da erva. Além disso, segundo uma espécie de senso comum, tinham jeito de maconheiros.
À noite era possível encontrá-los em uma esquina próxima à estação ferroviária do bairro, onde o grupo se reunia para puxar seu fumo de forma mais ou menos discreta. Ali ficavam conversando sobre assuntos que despertavam a curiosidade dos garotos que passavam por perto, inclusive a minha, obviamente.
Era um coletivo fechado, que incluía alguns vizinhos como Loca e Paulinho Vareta. O círculo fumegante era frequentado por um primo de segundo grau, Toninho, o Novo, além de Mauricinho, este afilhado de meu pai. Toninho, o Novo era filho de Toninho, o Velho, meu tio-avô aposentado da Fábrica Nacional de Motores que era um craque na arte de fazer enxertos em laranjeiras. Ao que consta, o mais novo dos Toninhos elevou a arte de fumar maconha a um patamar quase espiritual, enrolando seus baseados nas páginas de Bíblias. Segundo ele, as folhas de papel seda eram perfeitas, pois fininhas, sem alterar o paladar da erva. Ele se aproveitava da abundante distribuição dos livros santos pelos evangelistas que já pululavam nas periferias do Rio de Janeiro. Comentava-se que já havia fumado todo o Antigo Testamento, não sei com algum proveito para o seu conhecimento sobre as verdades sagradas.
Toninho, o Novo chegou a ser preso e a apanhar bastante por posse de uma pequena quantidade da erva. Não que praticasse qualquer tipo de delito além do seu uso ilegal. Ele e seus amigos eram maconheiros, não ladrões ou assaltantes, que pertenciam a outra categoria à margem da sociedade. De modo geral, trabalhavam de dia e, à noite, conversavam tranquilos em sua esquina de preferência, nos cumprimentando com educação. Como bons membros do setor alternativo da sociedade brasileira, alguns deles complementavam a renda fazendo artesanato num barracão, sandálias com sola de pneu velho, um clássico da década de 1970. Mas vivíamos sob as regras da Ditadura Militar, que manteve a tradição brasileira de criminalizar ou considerar como contravenção um amplo leque de pequenas infrações da vida social, incluindo a chamada “vadiagem”, que nos obrigava, desde muitos novos, a sair de casa com a Carteira de Trabalho no bolso para provar que não éramos ociosos. Não resta dúvidas que essas duras normas visavam às camadas populares. Para os privilegiados, a mão da lei pegava leve: basta ver os corpos dourados da classe média fumando maconha livremente nas Dunas do Barato, Ipanema, em plenos anos de chumbo da Ditadura.
Entre os maconheiros do bairro, Mauricinho era uma espécie de intelectual e pop star. Eu gostava bastante de conversar com ele. Estudante de Química, com carreira promissora como professor de pré-vestibulares, era provavelmente o único a teorizar sobre drogas e consciência, sociedade alternativa, contracultura, coisas que os outros não conseguiam entender, ou não tinham o menor interesse em fazê-lo. Eles queriam mesmo era fumar, e isso lhes bastava. Ao contrário de Toninho, o Novo, Mauricinho não se limitou à maconha, tendo seus interesses intelectuais o levado a fronteiras mais amplas, o que trouxe pesadas consequências para sua vida, resultando no encerramento precoce de uma carreira docente que se anunciava brilhante.
Ambos conviveram bem com minha família, com base em dois princípios: o primeiro deles é que podíamos comentar e criticar, mas não nos meter na vida dos outros; o segundo princípio, muito caro ao conjunto da comunidade em que fui criado, é que o trabalho redime os pecados, e ambos trabalhavam, sendo os únicos responsáveis pelas coisas que compravam.
O bicho pegou mesmo é quando as duas coisas, a maconha e a vadiagem, atingiram em cheio ao nosso núcleo, na figura de meu tio Chico. Quanto à maconha, não sei se o hábito de usá-la chegou aos ouvidos de meu avô. Creio que não, e se chegasse apenas daria um argumento a mais à decisão do velho de bani-lo da convivência familiar. Chico então namorava a minha tia Olinda, e nunca teve o menor interesse em labutar. Sobre ele, desenvolveram-se duas versões complacentes: a de que tinha problemas psicológicos e a de que era um filhinho de mamãe de classe média. Para mim, no entanto, o veredito definitivo veio de meu irmão, com uma sentença curta e grossa que resumiu os valores morais do nosso clã:
– É um filho da puta, que nunca trabalhou.
Ele praticou o pior dos crimes para o meu avô, que simplesmente o expulsou de casa a gritos e tamancadas, numa cena por mim presenciada e jamais esquecida:
– Que o senhor só pise de novo nesta casa quando estiver trabalhando.
Ele nunca pisou, sequer após a morte de meu avô. Todos os reprovavam, naquele círculo que, pragmático em relação às demais coisas da vida, tinha no trabalho um dogma inquestionável.
Além do amor ao ócio, ele era maconheiro, a ponto de ter visões de veados andando na linha de trem, quando exagerou na dose num local ao lado da estação de São Cristóvão. Até hoje não se sabe se os limites foram mesmo ultrapassados, ou se os cervídeos conseguiram pular dos muros do Zoológico da Quinta da Boa Vista, se espalhando ao longo dos trilhos próximos.
Voltando ao bairro, uma lição básica da economia da maconha é que há produtores, distribuidores e consumidores. Como em muitos outros lugares, havia um pequeno comércio, isso nos tempos triássicos em que a venda e o uso da ilícita planta se davam em escala artesanal, desconhecendo-se ainda monopólios, facções armadas ou o comércio de drogas mais pesadas, como cocaína. Nas ruas próximas, esse pequeno comércio era feito principalmente por Sérgio Caveirinha, ele também maconheiro, sendo desnecessário dizer que era um sujeito cadavérico, além de gentil e leitor assíduo de livros policiais de bolso. Ele sabia de seus limites, que indicavam a total proibição de venda a menores e filhos de vizinhos, sob pena de tomar uns tapas. Meu próprio pai o advertiu sobre isso. Ninguém o temia, e ele era visto mais como um cara meio maluco do que como alguém ligado a atividades perigosas. Estava na mesma categoria dos bicheiros – o jogo do bicho era hábito generalizado, do qual poucos escapavam, gente que não se enquadrava totalmente nas regras, mas que não enchia o saco ou prejudicava ninguém, a não ser aqueles que os procuravam.
Foi somente ao final da adolescência que comecei a reparar na existência de fronteiras porosas entre os maconheiros do bairro e outros segmentos sociais, excluindo talvez os mais velhos e alguns religiosos mais ferrenhos. Aliás, foi no mesmo período da vida que comecei a perceber que as regras rígidas da existência social eram bem mais flexíveis do que aquilo que nos foi ensinado na família e na escola. Os canais se abriam em festinhas e reuniões e em alguns cantinhos recônditos das ruas. Ou seja, por mais fechados que parecessem, os nossos maconheiros eram capazes da arte do diálogo com outras parcelas da população, com as quais asseguravam a boa convivência ao fumar o cachimbo da paz.


Delícia de texto. Saudade dessa vida, desse mundo que conhecemos na adolescência… obrigada
Amei!!! Na minha adolescência, qualquer pessoa que andasse “mais largada” era tachado de maconheiro. E, na verdade, os amigos maconheiros mesmo eram os grupinhos de ricos do colégio